A falácia do planejamento financeiro

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Bastou começar o ano e as emissoras adoram colocar matérias com “especialistas em finanças”, para dar dicas sobre o planejamento financeiro para o ano que se inicia, de modo que você possa não se endividar e, se possível, ainda guarde dinheiro.

Segundo esses “especialistas”, tudo é uma questão de planejamento e só disso. Se você está endividado, você não se planejou e pronto.

Confesso, não sou nenhum “especialista” em finanças, minha área de formação é outra, portanto, ao invés de falar de economia, vou falar de algo que eu entendo: projetos e planejamentos.

Trabalho com projetos já há alguns anos, não vou me prolongar nos referenciais teóricos do assunto, pois não é o objetivo, mas vou utilizar alguns fundamentos consolidados da área de projetos para demonstrar o quão tendenciosas, hipócritas e de má fé são essas reportagens.

Vamos lá. Todo projeto deve, obrigatoriamente, passar por uma série de análises antes de ser aprovado e iniciado, isso faz parte do planejamento. Vou resumir minha fala em três aspectos que podem invalidar qualquer projeto. São eles:

  • Inviabilidade técnica – basicamente consiste em constatar que não existem tecnologias ou metodologias adequadas para elaborar o projeto.
  • Inviabilidade legal – ocorre quando o projeto viola alguma Lei, seja ela Municipal, Estadual ou Federal, portanto, não pode ser levado à frente.
  • Inviabilidade financeira – ocorre quando o projeto pode até ser aprovado nos dois quesitos anteriores, no entanto, ao analisar a relação custo X benefício, ou ainda, o seu retorno sobre o investimento, conclui-se que o projeto não é viável.

Como disse, estou sendo bem objetivo, pois o assunto é bastante amplo, mas foge ao contexto a que me proponho agora.

Vou me ater ao último item, que é a inviabilidade financeira. É fato que todo projeto e que todo planejamento envolvem riscos, isso faz parte de qualquer projeto, no entanto, até os riscos são medidos e se atribui a eles um peso.

Podemos dizer que quanto maior a probabilidade de um risco ocorrer e quanto maior o seu grau de impacto, maior atenção ele merece, podendo ser um fator decisivo na ação de continuar ou não um projeto.

Financeiramente falando, não existe empresa no mundo, em sã consciência, que goste de jogar dinheiro pelo ralo, portanto, antes de iniciar um projeto, tudo é minuciosamente detalhado e, sem dúvida, a questão financeira é decisiva, pois valeria investir em algo que possui um alto grau de incerteza? Certamente que não.

Pois bem, vamos voltar à vida dos pobres mortais. Não sou contra o planejamento financeiro, que fique claro, eu mesmo tenho minhas planilhas e controlo todas as minhas despesas e receitas, no entanto, de forma alguma, isso me impede de vez ou outra, mergulhar no vermelho.

Essa falácia de que tudo é falta de planejamento é mero discurso para nos atribuir culpas que não temos. Qual o seu poder de decisão sobre a economia do país? Qual o seu poder de decisão nos preços praticados pelo mercado? Qual o seu poder de decisão se a empresa onde você trabalha resolve te dispensar?

Eu respondo: NENHUM, portanto, não compre esse discurso de má fé de que tudo é culpa sua. Considerando que você não seja demitido, você sabe quanto vai ganhar e tem alguma ideia do quanto vai gastar, mas isso não é uma certeza. Vamos aos números:

Segundo dados oficiais, só em 2019, nós tivemos um acumulado em torno de 30% no aumento do combustível, aproximadamente 12% na energia elétrica, sendo 50% nas bandeiras tarifárias, mais 11% no acumulado do valor médio da cesta básica, isso sem contar na loucura dos preços das carnes. Agora, por outro lado, qual foi o percentual de reajuste do seu salário, se é que você está empregado?

Ainda que você tenha uma linda planilha, com todos os seus gastos detalhados, não há orçamento que resista a tantos aumentos, até porque, seu salário não acompanha todos esses aumentos e o que se vê, ano após ano, é o achatamento do poder de compra das famílias brasileiras!

Para tentar falar menos mentira, os “especialistas” dão dicas, para você trocar de marcas, substituir produtos e, para o meu espanto, durante uma reportagem, entre risos, uma entrevistada disse que se não der para comer carne, come um ovo e pronto.

A lavagem cerebral funciona tão bem que o próprio cidadão se conforma, dia após dia, em perder seu poder de compra e tudo bem!

Não, não está tudo bem coisa nenhuma! Quem trabalha e ganha seu sustento de forma honesta, tem sim direito a ter alguns confortos e isso não é errado, como querem fazer você acreditar.

Na cabeça e na fala desses “especialistas”, você não pode ter mais diversão alguma, porque você não tem o direito de gastar com supérfluos, como ir ao cinema, sair com amigos para tomar uma cervejinha ou qualquer outra atividade que nos faz bem à alma!

Resta-nos o conformismo de trabalhar e encher os cofres dos bancos com nosso suor! Sim, o cofre dos bancos, porque são eles que nos roubam muito do orçamento com seus juros abusivos!

Já ouvi alguns dizendo que, para não pagar juros aos bancos, “basta não entrar no limite do especial”, como se isso só dependesse da boa vontade. Quem nunca se viu em situações onde precisou recorrer a eles, numa emergência, e nunca mais conseguiu sair?

Então, meu caro, você não está endividado só porque não tem uma planilha com seus gastos, você está endividado porque seu poder de compra vêm sendo achatado, décadas após décadas, porque você está desempregado junto com outros 13 milhões de brasileiros, porque o sistema financeiro é perverso é só quer lucro com a maldita financeirização de tudo, porque o Governo só tem bravatas delirantes, mas nenhuma ação concreta para proteger o povo.

Se o problema é só falta de planejamento, por qual motivo o Governo, muito recentemente, aprovou o socorro aos bancos, com dinheiro público, em caso de crises? Falta planejamento a eles, então?

Se o problema é falta de planejamento, por que tantas empresas devem para a Previdência e para o Fisco? Elas também não souberam se planejar? Para finalizar, por que uma empresa pode parcelar sua dívida com o fisco em 115 anos, enquanto você, que nem jatinho comprou, tem que se organizar para não dever nada?

O povo precisa, urgentemente, deixar de se levar por esses discursos rasos e alienantes! Caso eu fosse um economista, jamais teria coragem de fazer uma matéria dessas, pois é muita desonestidade! É querer jogar para o cidadão comum, que é o único que não tem como se defender, toda a responsabilidade pelo seu fracasso!

Pergunta para qualquer grande empresa se ela sobreviveria com tamanhas oscilações de aumentos, caso ela não pudesse repassar esses aumentos ao consumidor, no caso, nós! E você, repassa a quem?

Tenha certeza, se essa nossa situação fosse o planejamento de um projeto que estivesse sendo apresentado, para qualquer gestor, haveria uma chance muito alta dele ser reprovado, pois os riscos seriam muito grandes em relação aos benefícios, mas você, eu e todos os demais endividados desse país é que temos culpa, só porque não temos planejamento! Vá às favas com esse discurso hipócrita!

Acorda, meu povo! Acorda!

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