Finitudes

Vivemos tempos em que a morte nunca se fez tão presente em nossas vidas, mais que isso, parece que estamos nos acostumando com ela.

Recentemente, em meio a centenas de milhares de vidas perdidas, o presidente da nação brasileira, numa fala de extrema infelicidade, que aliás, parece ser a única que ele sabe falar, ao ser questionado sobre o número de brasileiros mortos, disse algo que causou forte repulsa. Disse ele que “todos nós iremos morrer um dia”.

É irônico, porque ele não disse nenhuma mentira, mas isso não tira todo o simbolismo dessa fala, além de toda a crueldade com a qual ela vem revestida.

Esse desprezo pelo ser humano, esse desprezo pela vida, parece que está se tornando cada vez mais comum.

Em oposição ao bem maior que todos nós temos, que é a nossa própria vida, parece que as pessoas estão se importando mais com aquilo que temos e não com aquilo que somos, se importam muito mais com a economia, que diga-se de passagem, não está nem aí para cada um de nós, que individualmente, não representamos nada além de uma parcela infinitesimal, portanto, totalmente descartável, dentro de um sistema que só se interessa por quem é 100% produtivo.

É mais curioso ainda como pessoas totalmente marginalizadas por esse sistema capitalista o defendem, com unhas e dentes, tal qual fossem grandes produtores de riqueza, mas não são! São somente pobres coitados que lutam para não morrer de fome e, ainda que morrendo de fome, lutam desesperados para salvar o monstro que os destrói!

Pegando carona na onda cristã e conservadora, fui buscar fundamentações para minha fala em passagens bíblicas. Achei uma muito interessante em Eclesiastes 9:4: “Enquanto há vida, há esperança”.

Para onde foi a esperança? Para onde foi o sentido da vida?

Quando aceitamos essa fala de que “todos vamos morrer um dia”, matamos definitivamente qualquer ponta de esperança e chance de luta pela vida! Isso não é algo, que alguém que se intitule cristão deveria dizer, pois é exatamente uma fala de um anticristo, de alguém que despreza o bem sagrado maior!

Assumir que nada pode ser feito é assumir que nenhuma vida é mais importante do que o maldito capital, pois o capital não pode ficar no prejuízo só porque algumas milhares de vidas vão se perder, até porque, todos vamos morrer mesmo!

Eu não sei se consigo manter um diálogo nesse nível, estou sendo sincero, pois quando falamos com pessoas com esse nível de psicopatia, penso eu, qualquer argumento se torna inútil ou estúpido.

Quando a sua vida deixa de ter valor em detrimento de se manter um sistema financeiro funcionando, o que há para se argumentar? É a mesma coisa que você tentar falar de futuro com um kamikaze ou com um homem bomba, prestes a executar a sua derradeira tarefa.

Essa fala vinda de alguém que, tanto moralmente quanto legalmente, tem o dever de zelar por todas as vidas do país para o qual foi eleito, só piora tudo. É desumano, é nefasto, é indefensável.

Mas fica pior, porque claro, tudo sempre pode piorar. Quem me dera fosse só o presidente pensando dessa forma, seria fácil de resolver. Fica muito pior quando você encontra milhares de pessoas assumindo essa fala, corroborando esse pensamento de completo desprezo pela vida e pelo outro.

Quando você ouve alguém falando que tudo bem morrer, afinal, “tem muita gente no mundo”, o que você fala? Eu não tenho argumentos, aliás, argumentos eu até tenho, eu não tenho mais paciência para tentar explicar algo para quem, definitivamente, já matou a sua própria alma e a sua própria essência humana.

Minha única curiosidade é saber se esse excesso de contingente humano vale para todo mundo, ou só para a família dos outros.

Nós vivemos tempos assombrosos, tempos onde nenhuma argumentação parece ter mais sentido, tempos onde as pessoas desistiram daquilo que as tornam humanas, desistiram da sua própria essência.

Comparativamente, é mais ou menos como se você descobrisse que o seu pai ou a sua mãe, ou qualquer outra pessoa que você ame, estivesse com uma doença muito grave, mas pesando a expectativa de vida dela e no quanto você teria que gastar, você simplesmente optasse por deixá-la morrer, afinal, o prejuízo que isso te traria não valeria o esforço de tentar salvá-la.

Além disso, tem tantos outros pais, mães, irmãos e amigos pelo mundo que não vale a pena se importar em salvar os seus.

Eu confesso, queria muito que essa pandemia tivesse me revelado um mundo pelo qual ainda valesse à pena lutar, um mundo que me motivasse a continuar comprando brigas e mais brigas, mas venho repensando tudo isso, porque no final das contas, parece que a vida foi relativizada de tal forma, que nada mais importa.

Acho que desde o início de tudo isso até hoje, não houve um único dia em que eu não derrubasse algumas lágrimas ao ver a dor do meu próximo, também me matando um pouco por dia. Sim, eu choro. Não consigo não sentir a dor daqueles que estão se despedindo dos seus, sem sequer ter o direito a um último adeus.

Por outro lado, me mata muito mais ver toda essa indiferença, todo esse desprezo, todo esse descaso e toda essa fome pelo capital, porque no final das contas, parece que o dinheiro é a única coisa que realmente importa.

Irônico é que a única coisa que parece importar, não vai acompanhar ninguém para o além túmulo, porque como já diz o velho ditado, caixão não tem gaveta!

Enquanto a minha vida existir, manterei a esperança, afinal, realmente creio nisso, mas também é fato que a minha fé na humanidade nunca mais será a mesma.

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