A humanidade é desumana

 No ano de 1989, no álbum As Quatro Estações, a banda Legião Urbana lançava a música “Quando o sol bater na janela do teu quarto”, com uma letra simples e um grande questionamento, como quase todas as letras, diga-se de passagem.

Vou transcrever um trecho dessa música, pois ela está na minha cabeça há alguns dias. O trecho é esse:

“A humanidade é desumana

Mas ainda temos chance

O sol nasce para todos

Só não sabe quem não quer…

Até bem pouco tempo atrás

Poderíamos mudar o mundo

Quem roubou nossa coragem?

Tudo é dor

E toda dor vem do desejo

De não sentirmos dor”

Sempre fui um apaixonado por Legião Urbana, se a memória já não me traiu, creio saber todas as letras de cor, inclusive a novela Faroeste Caboclo, mas eu só estou dizendo tudo isso para chegar numa outra reflexão, que está ligada aos nossos dias atuais.

Por ser um apaixonado pela banda, vez ou outra me pego pensando em alguma letra e no quanto essas canções, mesmo tendo sido escritas há mais de 20 anos, considerando a data de lançamento do último disco, ainda são atuais, aliás, algumas parecem que foram escritas hoje.

Essa constatação me dá uma certa nostalgia e um leve desespero, por saber que pouco ou nada mudamos, mas também uma ponta de esperança (?), por notar que não estamos nesse caos somente agora, mas sim, de longas datas.

Não sei se essa constatação é boa ou ruim, mas vou tentar me apegar ao lado positivo, muito provavelmente, numa tentativa de convencer a mim mesmo, de que, como já cantou Renato Russo, “ainda temos chance”.

É fato que nos falta coragem, alguém roubou essa coragem, pois ao mesmo tempo em que poderíamos conquistar o mundo, hoje nos resumimos a dor. Tudo é dor. E como dói.

Dói ver como as pessoas estão perdendo a humanidade, estão se tornando cada vez mais frias e insensíveis. Parece que nenhum sofrimento é capaz de despertar qualquer sentimento de compaixão, prevalecendo sempre as críticas ácidas, as acusações, os risos maquiavélicos, de deboche ou insanidade mental, mas de qualquer forma, sempre totalmente descontextualizados.

Parece que entramos num estado de torpor coletivo, onde parte das pessoas foi tomada por um sentimento mesquinho e mundano, que é capaz de justificar atrocidades dos mais variados matizes, tais como assassinatos, fome, dores físicas e morais, desalentos de qualquer espécie, tudo isso, sem causar qualquer tipo de empatia.

Muitas vezes me sinto perdido, tenho a sensação de ter caído num universo paralelo, que não era o que eu conhecia, com as pessoas com as quais eu convivia. Fisicamente elas são as mesmas, mas e a alma?

Não sei, parece que estou convivendo com clones que foram infectados com alguma doença letal, que tirou totalmente os sentimentos das pessoas que eu conhecia, ou talvez, das pessoas que eu achava que conhecia.

Me sinto perdido num daqueles filmes de terror, em que as pessoas vão se transformando em mortos-vivos, não são mais aqueles amigos ou familiares amados, mas sim, somente uma carcaça conhecida, mas que habitam em seu interior, demônios totalmente desconhecidos.

Creio que não existe nenhuma outra banda que cante tão bem o que sinto, em que as letras representem minha forma de pensar e de ver o mundo, então, até me sinto meio privilegiado de ser representado por Renato Russo, ao mesmo tempo, me sinto menos infeliz por saber que ele também, no seu tempo, já sentiu o que hoje eu sinto. Eu sei, isso é um grande egoísmo da minha parte, me sentir melhor porque outro já sofreu o que sofro hoje.

Minha esperança, poética e utópica, é que em algum amanhecer…

“Quando o sol bater

Na janela do teu quarto

Lembra e vê

Que o caminho é um só”

Que todos nós sejamos guiados por esse sol, que sejamos aquecidos pelo sentimento de novamente querer mudar o mundo, enquanto juntos atravessamos “esses dias tão estranhos”.

Quando o sol bater na janela do teu quarto – Legião Urbana

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