O descaso que condena

Novamente me inspirei na Legião Urbana para mais um texto. Com suas letras sempre atualíssimas, hoje escreverei tomando por base a música: metal contra as nuvens.

Se por alguma razão eu tivesse que escolher uma única música da Legião, certamente seria essa, pois vejo minha forma de pensar representada em cada estrofe.

Diante de toda essa situação esdrúxula que vivemos, de uma completa anomia, onde pessoas se sujeitam a situações totalmente vexatórias, inexplicáveis e inconcebíveis, em nome sabe-se Deus lá de qual subserviência, sempre encontro um certo refúgio quando ouço que “Não sou escravo de ninguém. Ninguém, senhor do meu domínio. Sei o que devo defender. E, por valor eu tenho. E temo o que agora se desfaz”.

Vivemos tempos difíceis. As diferenças são cada vez menos toleradas e assumir posturas críticas e políticas sempre resultam em desgastes e algumas perdas (ou livramentos). Por outro lado, é importante firmarmos nossas posições, pagando o preço que tenha que ser pago por isso, pois ao nos apequenarmos, damos espaço para que digam, em nosso nome, o que podemos ou não sentir e falar.

Ninguém fará isso por mim, nunca! Não preciso que ninguém venha me dizer o que preciso ou não defender, afinal, tenho minhas convicções e, por vezes, posso até não saber exatamente o quero, mas sei perfeitamente o que não quero.

Não quero jamais ser confundido com alguém que coaduna com esse caos social. Me causa fobia a simples ideia de ser tido como alguém que apoia os atuais desmandos e massacres.

Estou falando da Legião, mas nesse trecho, em específico, me lembro também do grande Raul Seixas, pois “eu é que não sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”!

Da mesma forma, também “temo pelo que agora se desfaz”. Muitas coisas estão sendo desfeitas, algumas delas demoraremos décadas para refazer, se é que conseguiremos. O temor é real e não fruto de uma paranoia delirante, de um ataque comunista, socialista, leninista e estalinista, mas sim, preocupações reais com direitos e garantias que estão se esvaindo, a passos largos, diante dos aplausos de parcela significativa da população que, bovinamente, caminha para o matadouro rendendo graças ao carrasco.

Normalmente, ao falarmos em religião, novas controvérsias surgem, porém “é a própria fé o que destrói”. As religiões, ironicamente, andam desligando o ser humano do Ser Divino, andam desconectando a criatura do Criador, construindo abismos intransponíveis justamente onde deveriam existir pontes.

Não me estenderei na questão religiosa, só isso é assunto para um longo texto, mas deixo registrada a minha opinião: as religiões estão matando Deus.

O ser humano, seja por comodismo ou preguiça, sempre espera que um ser iluminado, um “messias” surja e o salve de todos os males. Isso é histórico, o próprio Jesus foi esse Messias, enviado para guiar e “salvar” a humanidade. Acho que essa redenção falhou miseravelmente, pois ao nos depararmos com o dantesco inferno em que mergulhamos, não é possível que Jesus tenha logrado êxito no seu intento.

Antes que você já venha me xingar (se o fizer também, não estou nem aí para isso), volto à minha colocação: o ser humano quer um milagre, um salvador que, sem nenhum esforço da nossa parte, resolva tudo e isso não existe! Isso é vagabundagem ética e moral.

Jesus nunca nos enganou, Ele disse com todas as letras: “Eu sou o caminho”, mas nunca disse que nos carregaria no colo! O caminhar depende de nós e não num salvador mítico, que novamente enganou aos trouxas que buscam soluções simplistas e fáceis. Tem uma frase, dita pelo jornalista e crítico social, H.L. Menchen, que é perfeita para a ocasião. Diz ele que “para todo problema complexo, existe uma solução simples, elegante e completamente errada”.

Muitos acreditaram em promessas, em bravatas, em discursos moralistas toscos, mas na realidade, sobraram apenas “fome e destruição”.

Existe um dito popular que diz que, todo dia, saem de casa um tolo e um malandro e quando os dois se encontram, alguém faz negócio. O malandro sabemos quem é. Já os tolos, bem, esses são muitos.

Na música, há algo muito parecido: “Existem os tolos e  existe o ladrão. E há quem se alimente do que é roubo. Mas vou guardar o meu tesouro. Caso você esteja mentindo”

O “roubo” ganhou uma palavra nova, agora ele se apresenta como a tão combatida “corrupção”, que muitos hipócritas juram que a combatem, mas que no fundo, só se alimentam do produto desse roubo!

O tesouro guardado, entendo eu, são as nossas convicções, nossas crenças mais íntimas, aquilo que ninguém conseguirá retirar de nós.

É curioso como o “messias” adora citar trechos bíblicos, como o já citado várias vezes:  “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. No entanto, o vendilhão do templo tem pavor da verdade, tanto é que opera diuturnamente na mentira, no medo, na chantagem e na ameaça.

A verdade é algo que os hipócritas não suportam, a “verdade é o que assombra”, pois é fato que a verdade liberta e um povo liberto, conhecedor da verdade, jamais aceitaria um patife igual ao que hoje ocupa a presidência desse país. Repito, a verdade é tudo o que não sai daquela boca pútrida, pois a verdade não o interessa, no máximo, “mentiras sinceras” , pois  o seu modus operandi é a mentira, o medo e o terror.

Partindo para o final da música e do texto, temos uma mensagem de esperança, pois também é bíblico que “não há mal que sempre dure”. Para tal, é importante que nós, cada um de nós que temos essa consciência, não nos entreguemos.

“Não me entrego sem lutar. Tenho, ainda, coração. Não aprendi a me render. Que caia o inimigo então. Tudo passa, tudo passará”.

Juntos somos fortes. Não podemos nos render às táticas de dispersão, de divisão, que apenas têm por objetivo nos tornar fracos. Precisamos da união dos iguais, portanto, deixemos de discussões sem sentidos, de estrelismos e protagonismos excêntricos, o que precisamos agora é da união dos que se afinam com o ideal libertário contra essa corrente negacionista e conspiracionista.

Existirá um final feliz, teremos coisas bonitas para contar, mas até lá, ainda temos muito por fazer, sem olhar para trás. Apenas começamos a luta, o mundo começa agora. Apenas começamos e desistir não é uma opção.

 

Metal Contra as Nuvens – Legião Urbana

 

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