Um ano tomado pelas sombras

Sempre gostei de finalizar o ano com alguma mensagem de esperança, mas dessa vez não vai dar, não.

Vivemos um ano totalmente atípico, mas talvez, necessário. Em 2020 vimos todas as sombras, que cada um de nós carrega, se alastrando pela sociedade, praticamente sufocando toda tentativa de humanidade.

Logo no início dessa pandemia, ingenuamente, escrevi um texto falando que eu esperava que todo esse sofrimento, todas as perdas, pudessem nos fazer refletir sobre nossas atitudes e, de certa forma, nos levassem a um novo padrão de percepção da sociedade e das nossas ações. Utopicamente, eu esperava um novo mundo, um mundo melhor no pós-pandemia.

Chego ao final do ano com duas constatações: a pandemia está longe de acabar e o mundo não melhorou nada.

O ser humano, ao contrário das minhas expectativas, tirou o véu que ajudava a encobrir o monstro oculto.  Tivemos a alma desnudada e o que se viu foi assustador.

Descobrimos, entre os que fazem parte do nosso cotidiano, pessoas ruins, pessoas que nós tínhamos, até então, em alta estima, mas que se mostraram como elas realmente são, não como as idealizávamos.

Pessoas que não demonstram a menor empatia pelo outro, pelo sofrimento alheio, pela fome, pela violência ou, sequer, pelo luto alheio. Parece que, realmente, nada mais importa. O bom convívio em sociedade, até então, pressupunha alguns limites, mas ao que parece, esses limites desapareceram e o que impera é o egoísmo, puro e simples.

Isso me assustou e ainda me assusta. Fico me perguntando como não enxerguei essas coisas antes? Como eu pude ser tão ingênuo, ou estúpido, sei lá. Não é questão de ser melhor ou pior do que ninguém, não me julgo melhor, mas é uma questão de humanidade, de ainda me importar com a dor alheia, de ser empático com mais de 190 mil famílias que, neste Natal, ao invés de festejar algo, estarão de luto.

É perturbador perceber que a sociedade adoeceu ao ponto de não se importar com mais nada. Quando a possibilidade da morte já não inspira mais cautela, tanto com a sua vida, quanto com a vida do outro, resta muito pouco, ou mesmo nada a ser feito.

Nós estamos lidando com suicidas em potencial. São homens e mulheres bomba, prontos para puxar o gatilho e explodir e, se possível, levar o maior número de pessoas junto consigo. Era espantoso entender esse comportamento nos terroristas, mas é muito mais espantoso constatar que temos muitos terroristas ao nosso lado.

Hoje, quando escrevo, nos aproximamos das 190 mil mortes, falando só do Brasil, mas nem essas milhares de mortes são suficientes para que alguns (muitos), sequer admitam que existe uma ameaça real. Me pergunto, como conviver com isso como se tudo estivesse normal?

A virada para 2021 não vai mudar nada, pois continuaremos exatamente com os mesmos problemas, talvez, muitos outros ainda cheguem, mas só tenho uma certeza: essas pessoas continuarão a não se importar.

Como eu disse no início desse texto, esse foi um ano atípico, mas talvez necessário.  Após tudo o que falei, volto para esse ponto para me explicar melhor. O necessário, a que me refiro é porque, talvez, estivéssemos precisando de algo que libertasse os monstros escondidos.

Enquanto não sabemos com o que estamos lidando, de certa forma, não lidamos com nada além das nossas próprias suposições e das nossas visões de mundo, que não necessariamente, são as visões realistas do mundo. Depois do que estamos vivendo nesse ano, posso dizer, sem qualquer sombra de dúvida, de que por muito tempo, eu lidei com a versão que eu criei de algumas pessoas, não com o que elas realmente eram.

Acredito que muitos de vocês também devem ter essa mesma impressão e, nesse sentido, foi que citei, que talvez estivéssemos precisando desse choque de realidade, para que pudéssemos descobrir não somente quem somos, mas quem são as pessoas com as quais convivemos, uma vez que agora, parece que ninguém mais se importa em se assumir como um projeto de fascista.

A sensação que tenho é a de que estamos entrando num longo período de inverno, onde não veremos o sol por um bom tempo. As trevas saltaram aos nossos olhos, agora sabemos que ela existe, no entanto, ainda não sabemos o que fazer com ela.

A simples chegada de um ano novo não vai mudar nada, pois como já cantou Elis Regina, “nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, apenas repetimos velhos padrões. Como diz a música, essa também é a minha dor, pois em minha vã utopia, eu imaginava que o ser humano já estava num estágio um pouco melhor.

O antídoto contra a escuridão é a luz, aliás, a própria definição da escuridão é isso, é a ausência de luz. A luz pode ser extrapolada em várias interpretações figurativas, mas particularmente, gosto da analogia entre a luz e o conhecimento.

O conhecimento que, por sua vez, é maior do que a informação, pois só a informação não serve para nada, é preciso dar significado e saber o que fazer com essa informação e isso é o conhecimento.

Esse conhecimento, lenta e gradativamente, tem potencial transformador. Não é um processo simples e nem rápido, motivo pelo qual, acredito que esse inverno em que mergulhamos vai ser demorado.

Serão períodos de quebras de convicções, de reinvenções, de novos olhares para velhas questões e, como em toda mudança, de muitas resistências, como já vemos em todos os cantos, com pessoas espumando ódio e rancor, exatamente por não suportarem a ideia de uma nova realidade. Novamente, me valho da música da Elis Regina, quando ela diz que “o novo sempre vem”.

A chegada do novo independe da nossa vontade, podemos até tentar retardá-lo, como acredito, vínhamos fazendo, mas nesses casos, a força inevitável da própria natureza se faz valer e atropela o marasmo humano. Para mim, essa pandemia foi e está sendo isso, um sinal das forças da natureza, nos empurrando para um processo de mudança, que pode ser mais ou menos traumático, dependendo da forma como a encararmos.

Não é mais um convite à mudança, mas sim, um imperativo de mudança, pois o próprio planeta evolui e, caso não acompanhemos essa mudança, seremos simplesmente descartados, afinal, a despeito de toda soberba de alguns, não passamos de uma poeirinha cósmica na grandiosidade do universo.

Eu queria muito poder enganar a você e a mim mesmo, te desejar boas festas e um feliz ano novo e ficar esperando por um lindo 2021, mas você já entendeu, não é?

Vamos nos unir aos bons, pois como já disse Guimarães Rosa, “é junto dos bão que a gente fica mió”. Não vamos nos importar com aqueles que descobrimos como seres das trevas, eles têm o direito de fazer o que quiserem, mas nós também e, nesse caso, o melhor a se fazer é manter distância deles.

Não adianta querer trazer à luz quem se alegra na escuridão, quem gosta do lamaçal e das teias do ódio e do rancor. Vamos nos importar com quem se importa, pois são esses que precisam da nossa atenção, da nossa empatia e do nosso amor.

 

Como nossos pais – Elis Regina

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